Call For Papers
VIII SEMINÁRIO DA REDE INTERNACIONAL DE PESQUISA EM MIDIATIZAÇÃO E PROCESSOS SOCIAIS
(CHAMADA PRELIMINAR)
TEMA:
A PRODUÇÃO SOCIAL DE CONHECIMENTO NO CONTEXTO DA HIPER-MIDIATIZAÇÃO; ENTRE ENCANTAMENTOS E DESENCANTAMENTOS
CHAMADA FINAL: 31.01.2026 (DIVULGAÇÃO)
Submissão de Trabalhos aos GTs: 31 de janeiro a 15 de abril
Pareceres: em fluxo contínuo, até 15.06.2026
Confirmação de Aceites: Até 30.06.2026
Publicação de Trabalhos Aprovados: Até 15.07.2026 (anais de resumos expandidos)
Programação final de MESAS e dos GTs (Coordenadores): Até de 31.07.2026.
Realização do Evento: 21 a 25 de setembro de 2026
(hibridas: UFSM/UFBA/USP – PROGRAMAÇÃO A INFORMAR)
PPGS EXECUTORES: UFSM, UFBA E USP
PPGS COLABORADORES: UFF (MÍDIA E COTIDIANO), PUCRS, PUCSP, UFRGS, UFG
APOIO DE REDES: CISECO (BRASIL) E CIM (ARGENTINA)
COMISSÃO ORGANIZADORA:
Jairo Ferreira (UFSM/UFBA)
POSCOM-UFSM: Ada Silveira, Aline Dalmolin, Mauricio Fanfa
POSCOM-UFBA: Giovandro Ferreira, Ivanise Andrade, Claudiane Carvalho
PPGCOM-USP: Eneus Trindade, Karla Meira
COMISSÃO EDITORIAL: MIDIATICOM
A PRODUÇÃO SOCIAL DE CONHECIMENTO NO CONTEXTO DA HIPERMIDIATIZAÇÃO; ENTRE ENCANTAMENTOS E DESENCANTAMENTOS
A chamada deste VIII Seminário Internacional em Midiatização e Processos Sociais está construída em questões transversais: Qual a relação entre midiatização e capitalismo, considerando especialmente que o processo sócio-histórico de economia mercantil é situado como agência de violências contra a cultura e a natureza? O solapamento dos corpos transformados em estranhos – sujeitos abandonados, objetificados – se acelera neste contexto de hipermidiatização? Em que medida o fenômeno sócio-semio-tecno manifesto em Inteligência Artificial vem substituindo e solapando os objetos de conhecimento, na cultura e na área de pesquisa em comunicação? O que é produzir conhecimento, social e nas epistemologias acadêmicas, no contexto atual? A dispersão e exogenia estariam agora retroalimentadas pelo desencantamento do sujeito perante as “tecnologias fascinantes”? Estamos transitando para uma nova cultura de massa – do consumo para o pensamento unidimensionalizado pela IA? Quais são os fenômenos comunicacionais onde é possível identificar o nexo vincular entre sujeitos situados numa diversidade cada vez mais complexa em formas de conectividade midiatizada?
Estas questões dialogam com reflexões centrais de Couldry (Couldry, N. (2014). A necessary disenchantment: Myth, agency and injustice in a digital world. The Sociological Review, 62(4), 880–897), no qual critica o mito do big-data, “que proclama que as técnicas de big data estão gerando uma forma inteiramente nova e melhor de conhecimento social. Todos esses mitos (Proponente: Cloudry se refere também ao mito da mídia como nova sociabilidade, de conexão e de redes) exigem desconstrução por meio de uma hermenêutica específica, mas o caso do mito do big data é o mais paradoxal, uma vez que suas afirmações equivalem a uma anti-hermenêutica, uma recusa em interpretar o social como resultado de processos de construção de significado. Argumenta-se que esse terceiro mito exige uma hermenêutica da anti-hermenêutica para ser desconstruído e para que as concepções anteriores de conhecimento social (de Weber em diante, e, portanto, situando a problemática das formas de racionalização do mundo e encantamento), bem como as reivindicações de possível justiça e política baseadas nelas, sejam preservadas.”. Este texto acionou uma discussão que se desdobra em vários eixos presentes no Seminário (conhecimento comunicacional, resistência, circulação, comunicação), presentes em vários artigos correlacionados ao debate aberto por Couldry, que serão tensionados com correntes interpretativas do Sul. Ou seja, não se trata de reproduzir o conhecimento do norte, mas considerar que este conhecimento vem sendo utilizado no Brasil e necessita de agonísticas a partir de nossas epistemologias. Este tem sido o objetivo da Rede e Seminário Midiatização, desde suas fundações.
As questões desse VIII Seminário da Rede Internacional de Pesquisas em Midiatização e Processos Sociais apontam a necessidade de uma produção científica que, em conexão de rede, vá além dos focos de grupos de pesquisa centralizados em territórios hegemônicos. Em confronto com a instabilidade sociocultural em midiatização, a produção de saber exige analogias e atualização reflexiva entre territórios ambientais globais que devem ser compreendidos na constante produção das suas diferenças. Avaliamos que o debate em torno do conceito de midiatização permite confirmar sua contribuição à compreensão dos processos sociais contemporâneos, inclusive em interface com outros conceitos de linhagens da área da comunicação (cibercultura, recepção, mediações, semiótica, entre outras) e das teorias sociais e da linguagem, incluindo-se aí a demanda de que a produção científica considere a contínua revisão dos seus fundamentos teóricos e metodológicos. A produção bibliográfica da Rede pode ser visitada em: Ebooks: https://midiaticom.org/e-books/; Anais de Artigos completos GTS (https://anais.midiaticom.org/seminario-midiatizacao-artigos/issue/archive); Anais de Resumos ampliados (https://anais.midiaticom.org/seminario-midiatizacao-resumos/issue/archive).
Esse tema central será desdobrado em eixos conforme correntes e pesquisadores convidados para o evento:
Os eixos:
- CAPITALISMO, NATUREZA E CORPOS ABANDONADOS;
- VIOLÊNCIA E RESISTÊNCIAS: REENCANTAMENTO POSSÍVEL?
- DISPERSÃO E EXOGENIA NO CAMPO DA COMUNICAÇÃO;
- A CIRCULAÇÃO COMO OBJETO DINÂMICO;
- O OBJETO PERDIDO NUM CAMPO TARDIO?
- CAPITALISMO, NATUREZA E CORPOS ABANDONADOS
Parte-se da reflexão entre midiatização e capitalismo, de forma crítica, analisando processos midiáticos conforme várias correntes da área que discutem essa relação. Situamos aqui as valiosas contribuições de Muniz Sodré (2021, 2015), quando formula a hipótese de separação entre comunicação (ordem simbólica, a do comum) e midiatização (capital e tecnologia), como referência da incivilidade contemporânea. Ou, considerando contribuições e aportes da abordagem sociossimbólica da Escola de Grenoble (Bernard Miège, 2007; Lafont, 2019), valorizando as reflexões sobre as indústrias de mídia, em particular na reflexão sobre novos formatos de reprodutibilidade de conteúdos; ainda, relacionando capitalismo e semiose, como em Aidar Prado (2025), quando caracteriza o momento atual como de “superprodução semiótica imaterial, que investe os textos em movimento, articulando várias matrizes de linguagem: a sonora, a visual e a escrita. Trata-se da criação de um ambiente (Gomes, 2024) em que a cultura é a nova natureza e em que a vivência corporal é convocada pelos dispositivos a partir de todos os sentidos. Em termos do consumidor, trata-se de convocá-lo ao gozo (jouissance). Se o gozo escorregar de uma ponta a outra da superfície gozante, produzindo dor, o sistema oferece substâncias e tratamentos específicos a partir dos diagnósticos de transtornos localizáveis pelos tecnólogos da saúde”. Questiona-se sobre o processo de marketing para viabilizar um ambiente discursivo neutralizante, com escala ampliada pela Inteligência Artificial, desde deepfakes até os robôs de multiplicação e algoritmos com suas sugestões de consumo, de objetos estritamente culturais aos materiais. E os corpos e natureza abandonados que clamam nas margens, numa circulação em que o nexo atrativo com o outro se desdobra em vínculos quebrados.
- VIOLÊNCIA E RESISTÊNCIAS: REENCANTAMENTO POSSÍVEL?
No contexto de violência simbólica e física sobre os corpos e objetos sociais disputados por várias configurações discursivas, incluindo usos de IA para ampliação de escala e regulação de discursos dissidentes, essa mesa voltará a discutir o vínculo como nexo atrativo, entre indivíduos e culturas, e classes econômicas e políticas. Trata-se de discutir o regime semiótico dos textos, escritos e sonoros, mas especialmente a imagem (esse signo que, na semiose midiatizada, coloca desafios epistemológicos ao estruturalismo, situando a transição da semiologia à semiótica – em Barthes, Verón, Deleuze, entre outros), zona de contato sensível, onde sujeitos se encontram e desencontram. Ao mesmo tempo, encruzilhadas de distinções, naturalizações, fakes, reproduzidas por IA. Os acontecimentos marcantes são sucessivos (de Gaza às várias regiões do Brasil, incluindo as execuções recentes por ação de Estado, de corpos e natureza apartados do outro). Na Rede Midiatização, essas reflexões têm sido visitadas por Dalmolin (2025), Silveira (2025), Rosa (2024) e Löfgren (2025).
- DISPERSÃO E EXOGENIA NO CAMPO DA COMUNICAÇÃO
O ponto de partida dessa mesa são as reflexões sobre dispersão e exogenia observadas no campo da comunicação, acentuadas especialmente nos estudos de José Luiz Braga (2008) – agora em discussões no grupo da UFG, liderado por Luiz Signates, focado em pensar epistemologias da comunicação – e nas reflexões de Lucrécia Ferrara (2018). As hipóteses de Braga acentuam que o campo de pesquisa em comunicação, no espaço dessas reflexões, não aciona hegemonicamente as pesquisas nomotéticas e tende a desenvolver estudos de caso. Essa característica pode decorrer das próprias dificuldades do processo interacional, mas também das mutações dos meios, em especial das tecnologias. Não há grandes regras para a compreensão da variedade de fenômenos, e, no contexto atual, da Inteligência Artificial, as multiplicações de usos e práticas parecem confirmar esse quadro. Ao mesmo tempo, observa-se o uso crescente de softwares de análise de correlações, qualitativas ou quantitativas, que parecem evidenciar novas tendências. Isso coloca novos desafios para a dispersão antes observada nos estudos de caso e a exogenia epistemológica observada no início do século? Em que medida estamos num novo momento de atração desviante derivada das teorias vizinhas, que trazem aportes diversos para a compreensão dos meios e da Inteligência Artificial? Em que medida essas tendências nos afastam mais ainda das questões comunicacionais, considerando a distinção entre comunicação e midiatização?
- A CIRCULAÇÃO COMO OBJETO DINÂMICO
Como abordar a transição da sociedade midiatizada para o contexto de hipermidiatização lastreado pelas tecnologias de IA como nova forma de “sociedade de massa”? Partindo das reflexões dos participantes, retomamos aqui a reflexão de Fausto Neto (2010), Mario Carlón (2025) e Ferreira (2016). De Fausto Neto (2010), a problemática da circulação em sua visibilidade com as redes digitais, agora certamente trazendo novos desafios para pensar os objetos de investigação em momento de aceleração da circulação (Carlón, 2025). Ampliamos estas questões, considerando que as perspectivas hegemônicas do Norte (corrente institucional – Stig Hjarvard, 2014 – e socioconstrutivista – Göran Bolin, 2016, 2025) e dominante no Sul (semioantropológica) abrem possibilidades de interpretação para pensar a circulação, resistência e encantamento. Em que ponto de articulação pode-se pensar a resistência quando se analisam os processos de midiatização, considerando que há, nas várias correntes em midiatização, redução do lugar do sujeito nos processos sociais e midiáticos?
- O OBJETO PERDIDO NUM CAMPO TARDIO?
Partindo das reflexões dos participantes, especialmente de Lucrécia Ferrara (2006), parte-se do senso compartilhado de que o campo da comunicação, no âmbito das epistemologias das ciências sociais e da linguagem, é tardio – além de ser impreciso e mutante – e se enfrenta com as mutações dos meios ativadas pelas constantes inovações tecnológicas. Esse processo refere-se também às mediações comunicativas, com sua multiplicação de usos e práticas midiáticas, questionando-se, por essa via, a tensão dicotômica entre apocalípticos e integrados. “Ou seja, não nos interessa, no momento, voltar às questões relativas à cultura de massa tratadas por Eco …, mas perceber uma questão básica inerente àquela dicotomia: de um lado, os integrados produzem os próprios objetos da cultura de massa, de outro lado, os apocalípticos produzem a teoria daquela cultura; os primeiros operam no âmbito da produção da cultura, os segundos tratam dela teoricamente”. Para além desta tensão, trata-se de refletir sobre a liquidez do processo em coletivos, de forma cooperativa, entre pares, de forma a lidar com uma sociedade acrítica, amoral e anômica, com novos desafios éticos, nas práticas sociais e nas epistemologias da comunicação, numa situação de impasse onde há indícios em que as perspectivas de incerteza não são apenas epistemológicas, mas se enfrentam com processos ontológicos (ambientes e corpos abandonados) que parecem imperativos (fatos) perante os argumentos (discursos acadêmicos).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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